Mesa de jantar em peroba caçambada

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Branco Leone
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Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor Branco Leone » 30 Mai 2016 17:58

Optei por abrir este tópico em "Tutoriais e Desafios" mais pelo "Desafios" do que pelo "Tutorial". É claro que vou procurar detalhar cada aspecto da construção do móvel em questão, mas não consigo imaginar desafio maior para minhas capengas capacidades técnicas. Entendam este tópico portanto como a explanação de um sério desafio que enfrentarei, dando-lhes pitadas de tutorial.

A história começa há uns anos, quando encontrei uma caçamba sendo carregada com as peças de uma escada de Peroba que estava sendo retirada de um sobrado aqui perto (em SP). Dois porta-malas e uma dor nas costas depois, as peças estavam aqui em casa, e comecei a pensar no que fazer com elas. Muita água passou por baixo da ponte desde então e, finalmente, ano passado, consegui comprar uma casa onde coubesse aquilo que eu queria fazer desde o início com essa madeira: uma mesa de jantar.

Para o tampo, pretendo usar oito degraus (talvez nove), seis retos e dois do leque (a curva da escada).
Como arremate da borda da mesa, quero aproveitar os arremates dos degraus, que serão cortados para que as peças encostem completamente umas nas outras (isso não aparece nas fotos).
Para os pés, primeiro pensei nuns batentes de peroba que ganhei de um amigo na roça (eram da casa dele que caiu numa enchente) e, pelas contas, as árvores de onde as tiraram foram plantadas quando Dom João VI chegou ao Brasil (é sério). No entanto, só consegui salvar peças para três pernas, posto que as outras estavam severamente comidas de cupim.


Aqui, as peças escolhidas para o tampo, dispostas no chão da oficina. Os "pespontos" são as linhas de corte dos arremates dos degraus. Os excessos (os bicos) serão cortados para compor o retângulo.
Como as lajotas no chão têm 40 x 40, suponho uma medida aproximada de 2 x 0,9 m para o tampo.

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Tirando pregos e raspando cracas, encontrei este carimbo num dos lombos.

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Pesquisando por "Cia. Territorial Urbana Paulista", descobri referências que indicam que era uma empresa do conde Luiz Eduardo Matarazzo, onde ele empregava amigos (ex?)nazistas.



Aqui, sobre a serra, uma das peças já separada do tal arremate e outras três esperando o corte.

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Outras peças ainda completas, empilhadas sobre o desempeno (que não funciona, mas vai ter que funcionar quando eu começar a fazer a mesa pra valer).

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A idéia inicial era usar quatro das seis peças abaixo como pernas.

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No entanto, em três delas isso se mostrou impraticável, pelo tanto que o bicho as tinha devorado (sem mencionar os séculos — literalmente — de pregos e tachas que acumularam quando em uso).



Algumas partes estavam realmente bonitas, com "spalteds" pronunciados, mas com visíveis sinais de "doença ativa", e eu não estou pra brincar com esses bichos.

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Estou optando então por dividir em quatro o pontalete que aparece à esquerda da foto abaixo e fazer com ele as quatro pernas, que ficarão mais ou menos com 10 x 10 de bitola. Eu gostaria que fossem mais grossos, gosto muito de mesas "coxudas" (não só e mesas, diga-se de passagem).
Só espero que o lenho dele combine com a Peroba Rosa.

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Os próximos passos são limpar os arremates de todas as peças (incluindo alguma que eu resolva adicionar ao projeto, pois há mais que isso à disposição), esquadrar tudo, limpar o sinteko (ou lá o que for esse verniz) das peças e decidir o que fazer com os pés.

Nesta semana, vou levar pra lá três batentes de peroba (comuns, mais modernos) que estão aqui, para limpar e ver se servirão como estrutura de ligação dos pés.

E pensar num desenho para as pernas, que ainda não foi decidido.
Quem tiver paciência, verá.

Pela atenção, obrigado.
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor paulobro » 30 Mai 2016 18:36

Se me permite o pitaco, enquanto estiver encaraminholando os diferentes componentes construtivos talvez recomendavel ja antecipar qual exato metodo vai ser empregado no aspecto a longo prazo, penso, mais crucial na construcao de uma mesa: a fixacao do tampo `a base. Ainda mais neste caso, onde o tampo vai-se expandir e contrair ao longo da maior dimensao.
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor Branco Leone » 31 Mai 2016 07:42

paulobro escreveu:Se me permite o pitaco...
Tá brincando? É JUSTAMENTE pra isso que eu trago pra cá maus toscos projetinhos!



paulobro escreveu:...talvez recomendavel ja antecipar qual exato metodo vai ser empregado no aspecto a longo prazo, penso, mais crucial na construcao de uma mesa: a fixacao do tampo `a base. Ainda mais neste caso, onde o tampo vai-se expandir e contrair ao longo da maior dimensao.
A idéia vigente no momento é prender cada peça do tampo com duas cavilhonas em cada longarina (quatro cavilhas por peça, portanto, pois são duas longarinas), sendo que cada longarina vai apoiada e encaixada num par de pés.
Ache que funciona?
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor paulobro » 31 Mai 2016 08:46

Nao sei, e em uma rapida busca nao consegui encontrar, o valor do coeficiente de dilatacao para variacoes de umidade da peroba rosa. Utilizando o calculador da woodweb (http://www.woodweb.com/cgi-bin/calculat ... =shrinkage), o resultado para uma extensao transversal de 78 polegadas (aproximadamente o comprimento do teu tampo) em uma prancha de corte chato, e uma variacao de umidade do lenho de 28% para 12% (certamente, o pior cenario), e' de... 2.8526 polegadas! Ou seja, teu tampo tem o potencial, no pior cenario, de sofrer variacoes no comprimento na ordem de 7,5 centimetros.

Nao sei qual a variacao media de umidade relativa do ar entre inverno e verao do lugar onde a mesa vai estabelecer residencia. Fosse aqui no portinho, chuto as reais circunstancias seriam uns 40-60% do calculado, variacoes no comprimento na ordem de 3 centimetros certamente esperadas no transcurso de um ano. Essas sao variacoes que ocorrem lenta, lentamente. Mas sao inexoraveis: relata-se na antiguidade, antes do uso de explosivos, rachavam grandes blocos de pedra introduzindo cunhas de madeira seca e entao adicionavam agua regularmente para manter as cunhas empapadas. Em alguns dias a rocha fendia.

Entao, respondendo a tua pergunta se vai funcionar o proposto metodo de casar tampo e base da mesa: Pode ser que sim. Mas tambem pode ser que nao. Se o tampo variar mesmo uns 3cm no comprimento, rigidamente fixado com um monte de cavilhoes `as longarinas, algo vai ceder. Ou alguns dos elementos, ou as longarinas, algo vai certamente rachar para acomodar tal variacao dimensional. Se no entanto a variacao for de apenas alguns milimetros, provavelmente a elasticidade dos lenhos conseguira absorver a expansao/contracao e nada aconteca.

Nao sei se aprecias apostas. Eu nao, especialmente envolvendo madeiras especiais. Entao, pela minha otica eu nao recomendaria esse metodo de fixacao.
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor schneider » 31 Mai 2016 11:14

Eu vou ficar quietinho aqui só de zóio
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor Pdalbergia » 31 Mai 2016 11:31

Me desculpe Paulo, mas não consigo acreditar numa variação de 3 cm nestas tabuas. Se isso ocorre mesmo, é algo impressionante. 3 mm seria aceitável..rsrsr.
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor paulobro » 31 Mai 2016 12:08

Aqui, os valores obtidos em outro calculador dA Matriz, o Shrinkulator (http://www.woodbin.com/calcs/shrinkulator/):


Variando o teor de umidade do lenho, de inteiramente saturado (28%) a inteiramente seco ao ar (12%), medidas em polegadas:

peroba teor.jpg
peroba teor.jpg (30.48 KiB) Exibido 719 vezes


Variando o teor de um inverno umido (18%) a inteiramente seco ao ar (12%), medidas em centimetros:

peroba cm teor.jpg
peroba cm teor.jpg (30.83 KiB) Exibido 719 vezes


Como as nossas madeiras muitissimo raramente, se jamais, sao cortadas radialmente, mas usualmente cortadas em fatias paralelas ao eixo, o valor que e' mais provavel se aplique e' a variacao tangencial.
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor Branco Leone » 31 Mai 2016 14:52

schneider escreveu:Eu vou ficar quietinho aqui só de zóio
Schina,
quem me dera eu pudesse fazer isso também mas, como estou envolvido na questão, tenho que participar. :lol:



paulobro escreveu:...teu tampo tem o potencial, no pior cenario, de sofrer variacoes no comprimento na ordem de 7,5 centimetros.
À parte a possibilidade de poder ter mais alguns convidados à mesa em épocas de grande umidade, essa informação não me conforta nem um pouco. :lol:



paulobro escreveu:Nao sei qual a variacao media de umidade relativa do ar entre inverno e verao do lugar onde a mesa vai estabelecer residencia.
Essa mesa morará num lugar em que, mesmo nos momentos mais secos do inverno, a água escorre pelas folhas de couve no raiar do sol, e essas mesmas couves parecem cozidas ao meio-dia. No inverno, vejo colunas de vapor emergindo do rio; no verão chovem canivetes, cães, gatos e vacas malhadas. Em três palavras: Mata Atlântica Subtropical. Se podemos classificá-lo, de um modo geral, como um lugar úmido, há por certo seus períodos estiados, jamais como os paulistanos, em que há dias em que respirar é trabalho árduo, e que os circuitos de controle da temperatura corporal entram em pane por falta de dados.
O que concluir disso?



paulobro escreveu:Entao, respondendo a tua pergunta se vai funcionar o proposto metodo de casar tampo e base da mesa: Pode ser que sim. Mas tambem pode ser que nao. Se o tampo variar mesmo uns 3cm no comprimento, rigidamente fixado com um monte de cavilhoes `as longarinas, algo vai ceder. Ou alguns dos elementos, ou as longarinas, algo vai certamente rachar para acomodar tal variacao dimensional. Se no entanto a variacao for de apenas alguns milimetros, provavelmente a elasticidade dos lenhos conseguira absorver a expansao/contracao e nada aconteca.
A única coisa que me ocorre para driblar essa possibilidade é voltar a pensar (já tinha descartado essa idéia) em vãos entre as peças, como fazem nos viadutos. Recurso não muito bonito, bom para escoar migalhas e pingos, mas que inviabiliza a moldura que pretendo fazer à toda volta.



paulobro escreveu:Nao sei se aprecias apostas. Eu nao, especialmente envolvendo madeiras especiais. Entao, pela minha otica eu nao recomendaria esse metodo de fixacao.
Não gosto de apostas. Posso optar por unir as peças pelas laterais (com almas, cavilhas ou biscoitos), e pensar num modo de juntar isso aos pés de forma "flutuante", menos rígida que o projeto original. E faria isso baseado no projeto e resultado da minha bancada, feita em Peroba dessa maneira, e que permanece sem vãos, torções ou rachaduras depois de meia dúzia de anos sofrendo pancada e variações de umidade.

E agora?
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor paulobro » 31 Mai 2016 14:59

Para complementar:

Como havia estimado os valores da umidade, dei uma pesquisada e encontrei, de fonte segura — o INMET, uma tabela mostrando valores medios da umidade relativa no portinho, mes a mes, durante os ultimos 10 anos:

umedia.jpg
umedia.jpg (106.25 KiB) Exibido 705 vezes

Lancando entao os dados dali no Shrinkulator, chegamos nisso:

umrelativa.jpg
umrelativa.jpg (34.46 KiB) Exibido 705 vezes


Ou seja, no quadro mais realista possamos projetar, a variacao de comprimento transversal em 2 metros de extensao de uma prancha, ou serie de pranchas, de peroba rosa durante um ano no portinho pode ser estimada entre 1,5 - 2,5 cm.
ESSANCHES
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Re: Mesa de jantar em peroba caçambada

Mensagempor ESSANCHES » 31 Mai 2016 15:01

Caraca............nunca imaginei uma possível variação tao grande assim..................só ligado pra aprender com os amigos aqui.


[]s
Emerson

"Enquanto for feio ser brasileiro (ou mais bonito ser descendente do chamado "primeiro mundo"), este país não tem remédio." BL

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